Episódio 114: O Pantera, a Justiceira e a Patinadora Invernal

A edição da semana tem como destaque dois indicados ao Oscar e uma aguardada fita de super-herói.

O controverso Três Anúncios para um Crime (23:35) dividiu a Varanda: com humor negro, o filme faz um retrato da “América profunda” ao narrar a história de uma mulher que enfrenta violentamente quem se opõe a ela. Um dos destaques na premiação da Academia de Hollywood, tem um roteiro premiado, e, ao mesmo tempo, cheio de viradas e situações altamente discutíveis.

Outro indicado é Eu, Tonya (1:00:28). A fantástica história da patinadora acusada de participar de um plano para agredir sua maior rival também chega às telas com muito sarcasmo, trazendo a questão sobre ser, ou não, chapa-branca na adaptação de casos reais.

O aguardado Pantera Negra (1:17:40) é a aposta da Marvel para o início de 2018. O melhor filme da grife de super-heróis? O mais político? Ou mais do mesmo?

E mais: Cantinho do Ouvinte, Boletim do Oscar (10:39) e, nas Recomendações, destaque para Mudbound – Lágrima sobre o Mississipi (1:47:35). Bom podcast!

METAVARANDA (média das notas dos filmes da edição)

Três Anúncios para um Crime | Three Billboards Outside Ebbing, Missouri | Martin McDonagh | 58
Eu, Tonya | I, Tonya | Craig Gillespie | 38
Pantera Negra | Black Panther | Ryan Coogler | 65
Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi | Mudbound | Dee Rees | 53

Gravado na segunda, 19 de fevereiro, na varanda do Michel.

Anúncios

28 comentários sobre “Episódio 114: O Pantera, a Justiceira e a Patinadora Invernal

  1. Amigos da Varanda,

    Vou comentar, nesta primeira parte, sobre Três Anúncios…

    “A força de um roteiro depende da direção”

    Muito se fala no roteiro de Três anúncios para um crime como seu ponto forte, mas o grande mérito do filme está na direção. Isto por que, o roteiro e excelente elenco, nas mãos de um diretor maniqueísta, cairia fatalmente em clichês que resultariam numa construção fílmica cheia de amarrações sentimentalistas e de redenção. Não amigos, não há redenção neste filme. Nenhum personagem se redime (talvez Woody Harrelson ) como vocês falaram. Como posso achar que personagens que saem ao final para fazer justiça com as próprias mãos se redimiram? Eles não se redimiram. Eles continuam ser violentos. O que Martin McDonagh habilmente faz é nos aproximar dos personagens e ora nos distanciar deles, com a finalidade de fazer o espectador ver que naquele micro-universo, como no nosso mundo (para mim isto não é defeito, é uma qualidade do filme), não existem mocinhas e vilões… Nós somos um emaranhado de coisa que sempre estamos afetando o outro de alguma forma (para além do binarismo do fazer bem e fazer mal).Para mim, tal escolha é um grande acerto do diretor, pois, tratar seus personagens como humanos que erram e acertam, possibilita o desenvolvimento de um humor politicamente incorreto, porém politicamente acertado com nossos tempos de vigilância excessiva dentro dos filmes e da arte (sempre queremos filmes politicamente corretos – gente, não tomem como pessoal, por favor, não é para nenhum de vocês). Humor, por sinal, que pode até ferir alguns ouvidos (feriu o do Tiago rs… Brincadeira), mas que grita sobre a necessidade de conversarmos com quem pensa e age diferente de nós(como mostra o filme através das três placa, das três cartas e da trinca de protagonistas – adorei essa rima do filme). Eu não vi o discurso da paz e amor, mas vi o discurso da necessidade da conversa, afinal, não mudaremos o racista, o homofóbico e paneleiros (rs…), mas, conversando, podemos mudar as gerações futuras.

    Abraço em todos e adorei o título escolhido pela Cris que já é da Varanda – tem que mudar a vinheta de entrada agora com Cris.

    ps.: Entendo os argumentos que vocês usaram para construir a análise. Depois comento Pantera Negra… Marvel tem que fazer campanha pelo Oscar e quebrar esse muro… Fazer pontes.

    Curtir

    1. Não vejo nada muito especial na direção do filme, sinceramente, e ainda acho que o Grande Truque é o roteiro, mas… Enfim. Cada um se aproxima do filme da maneira como pode/quer/consegue. Eu entendo que você tenha gostado do tema (“não existem mocinhos e vilões”, etc), mas o que me irrita é a maneira como a defesa desse tema é construída. Tudo me parece muito esquemático e conveniente. Percebo que, felizmente, o filme não irrita a todos da mesma maneira.

      Abraço

      Curtir

  2. Eu escuto sempre, mas nunca comento, mas resolvi passar por cima da minha vergonha e tentar tornar isso um hábito.
    Sobre Três Anúncios, eu concordo com o Tiago e com o Chico, é uma visão estrangeira sobre os EUA, e um filme com um roteiro muito ruim e problemático, tem muitas coincidências, tem um Deus Ex-machina envolvendo um personagem e umas cartas que resolve praticamente tudo, que é vergonhoso, e a personagem principal começa e termina o filme no mesmo lugar, no máximo ela serviu para perdoar o policial racista, porque não sabemos se os negros que ele maltratou perdoaram. Li alguém falando que se fosse um filme escrito e dirigido pelos Coen, todo mundo teria amado, eu acho que sim, pois com certeza seria um filme bem melhor. De qualquer forma, gosto das atuações e da trilha sonora, que não é sutil, assim como o filme, mas é bonita, e gosto do envolvimento da personagem da Frances com os animais (virando o besouro que estava agonizando de cabeça pra baixo, com o cervo), mas só. Vi duas vezes, na primeira eu tinha gostado, mas ficado incomodado com o roteiro, e na segunda vez, odiei demais o roteiro e isso estragou todo o filme.
    Sobre Eu, Tonya, eu gostei mais, acredito que a questão da violência doméstica foi bem problemática (teve um moça no cinema atrás de mim, que quando o marido dela compra os chocolates que a Tonya queria falou “own, que fofo”, mesmo depois de ter arrebentado ela, e achei isso muito estranho), de qualquer forma por ter sido baseado numa história real, e ter visto umas entrevistas com as pessoas reais que participaram de tudo isso, vi que era todo mundo bem bobo, e o filme só aumentou a potência, então não me incomodei, nem me incomodei com a abordagem do filme, em ter deixado a Nancy Kerrigan em segundo plano, até pelo nome do filme mesmo, seria tudo sobre a Tonya. Gosto da atuação da Margot, mas achei que ela não foi certa para o papel, a Tonya era discriminada por ser fora dos padrões, e a Margot, mesmo com maquiagem e cabelo bagunçado, estava sempre dentro do padrão, e continuar ela dos 15 aos 40 anos foi estranho, mas mesmo assim gostei das duas atuações femininas do filme, mesmo sendo caricatas, porém a dupla mãe e filha de Lady Bird são bem melhores.
    E os outros filmes, eu não vi, então o textão acaba aqui.
    Quero comentar mais e vocês toda semana me acompanham no caminho para o trabalho (trabalho em outra cidade) e ouvir o podcast sempre me anima.
    Obrigado!

    Curtir

    1. Muito legal o comentário, Lucas. Obrigado.

      “Li alguém falando que se fosse um filme escrito e dirigido pelos Coen, todo mundo teria amado, eu acho que sim, pois com certeza seria um filme bem melhor.”

      Sim, concordo e acho que o ponto é esse. Os Coen têm um olhar mais particular tanto para a América quanto para o cinema, o que certamente jogaria a favor do filme. E, apesar da impressão geral de terem criado uma grife narrativa marcada por coincidências e reviravoltas mirabolantes, um filme como ‘Onde os Fracos não têm Vez’ mostra que eles não se deixam levar sempre por estruturas esquemáticas de roteiro.

      Foi bom você ter feito a observação sobre a trilha sonora… Também gosto dela. Esquecemos de falar sobre.

      Abraço

      Curtir

  3. Eu abracei “Três Anúncios” com muita força, inclusive no momento incendiário (que é, sem dúvida, um dos trechos mais absurdos em termos de roteiro, concordo), então minha opinião já é quase irracional. Diria até que eu queria ter sido o Sam Rockwell, por um instante, para ser escalada para esse papel. Achei maravilhoso (no pior dos sentidos) o personagem dele. Agora, foi muito, muito interessante ter entrado em contato com as opiniões do Chico e do Tiago. Elas fazem todo sentido, por mais que eu tenha adorado o filme. Essa é uma das maiores graças de ouvir vocês: surpreender-se elogiando algo de que você discorda.

    Curtir

  4. Olá Varandeiros

    Gostaria de fazer uma análise um pouco diferente da de vcs sobre 3 anúncios, puxando um gancho de uma colocação da Cris: o filme é uma fábula – mais do que apresentar o macro (a América ou a ascensão do fascismo na América) a partir do micro (os preconceitos de uma cidadezinha no cú dos EUA) o filme deseja revelar os mecanismos do autoritarismo do estado, revelar a forma como o culto ao poder se dá.
    Todos os personagens são planos e superficiais, características das fábula, pois eles não são pessoas mas sim representações de ideias. Todos os personagens do filme são detestáveis (salvo os filhos e o cervo) e não existe nenhuma redenção…
    Vou citar alguns exemplos (a parti daqui uma porrada de spoiler – acho o termo porrada de spoiler melhor do que buraco do spoiler…😉)
    Vou começar com a Mama Dixon – devido à proximidade cultural aqui em terras brasilis – mama Dixon é uma velha, com danos cerebrais que não permitem que ela saia do lugar, só fica propagando ódio em cada frase, contra tudo e contra, e impulsionando os cães de guarda do sistema (Dixon boy) a ação. Percebem que ela é uma “paneleira dos jardins” – ela simboliza toda aquela parcela da população simplesmente interessada na manutenção do sistema e de seus privilégios.
    Percebam que quase todos os personagens seguem essa linha, são representações de parcelas da sociedade e da forma como a opressão se perpetua…
    Outro exemplo: eu não enxerguei a redenção do personagem do Sam Rockwell – eu só vi a trajetória de descarte do cão de guarda quando ele não interessa mais ao sistema sendo cooptado pelo outro lado…

    Quanto ao humor negro tem uma frase que eu gosto muito… Se eu rio das coisas trágicas é para não chorar…

    Ok posso ter dado uma viajada… (Mas garanto, que como os Varandeiros oficiais, não assisto aos filmes chapado!!!!)

    Um grande abraço
    Leandro vecchi

    Curtir

    1. Interessante a análise. Bem diferente de tudo que eu tinha lido sobre o filme.

      Sobre a “redenção” do personagem do Rockwell. Sem querer dar muito spoiler (mas fica o ALERTA), duas cenas mostram mudanças no comportamento dele: a briga no bar (que acontece depois de ele ter lido a carta que funciona como gatilho para esse mudança) e o desfecho aberto da trama, que mostra ao menos o aparecimento de uma dúvida na conduta dos personagens vingativos. Obviamente, a redenção no filme não aparece de uma maneira absolutamente explícita (o personagem não se transforma no Pantera Negra, digamos), mas essas mudanças positivas que ocorrem nele estão na trama, e bem claramente.

      No mais, acho válida a interpretação do filme como uma fábula, mas não vejo nada muito claro nesse aspecto (‘Dogville’ é um bom exemplo de como tomar distanciamento e transformar personagens em metáforas estanques para uma análise social).

      Obrigado pelo comentário
      Abraço!

      Curtir

      1. Fala Thiago… não querendo invalidar sua fala, respeito e admiro muito vc e os varandeiros, e não querendo também te vender um filme que vc não curtiu mas destacando alguns pontos e fazendo um link com pantera negra seguem mais algumas considerações:

        eu entendo que ocorreu uma transformação no personagem do Dixon, ele aprendeu a ser mais ardiloso, porém não acho que ocorreu uma redenção, pois discordo que a personagem da Frances McDormand represente de alguma forma a justiça ou a bondade.
        Dixon muda de lado, depois de ser descartado pelo sistema, mas continua sendo um capanga, como eu disse, um pouco mais ardiloso, mais próximo do personagem do Woody Harrelson, mas ainda um capanga.
        Curioso a proximidade das datas de lançamento entre 3 anúncios e pantera negra pois considerei a personagem da Frances McDormand muito parecida com o vilão do pantera (Michael B. Jordan) – citando Paulo Freire – “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.”

        e olhando por esse aspecto o Final do Pantera negra é brilhante

        um grande abraço
        Leandro Vecchi

        Curtir

  5. Ola a todos!
    Estou adorando os episódios com uma enxurrada de filmes…:)
    Gostaria de deixar comentário apenas para o Pantera Negra, que na minha opinião é o melhor dos filmes discutidos.
    Assim como a maioria, fui surpreendida. Adorei a trilha sonora, o enredo, e principalmente as referências a outros filmes Disney como o Rei Leão.
    Acho que o filme poderia ser menos extenso, confesso que na cena de luta final dei uma cochilada. Essa tendência de filmes maiores de 120 minutos é algo que acho muito delicado. Na minha opinião, falta edição, nada conta filmes extensos, desde que durante os 130, 140 minutos tenha conteúdo de qualidade, ou que seja realmente relevante para o desenvolvimento do roteiro.
    Quando vou assistir um filme e vejo a duração de 150 minutos, dependendo do gênero, ja sei que vou cochilar em algum momento. E vejo que cada vez mais isso é uma infeliz tendência, sou da bandeira: “podemos ter filme bom com menos de 120 minutos “.
    Ah! Sei que estamos em época do Oscar, muitos filmes a serem discutidos, mas gostaria bastante de ver a discussão de vocês sobre “O sacrifício do cervo sagrado” ..

    Beijos a todos
    Beijos

    Curtir

    1. Também achei muito longo, Fernanda. É um vício da Marvel e de outros filmes de super-heróis: muita informação, às vezes organizada de uma maneira truncada e sem muita sutileza.

      Mas acho que os méritos do filme superam os problemas.

      Abraço!

      Curtir

  6. Noto que nos filmes dos Coen, (em alguns, não em todos) o humor negro surge do banal e o que tem de mais absurdo da situação, e no filme do Martin McDonagh ele banaliza a situação para que o humor surja em algo que não estava lá… É como se um achasse o detalhe naquilo que não é notado e outro tivesse que criar o detalhe pare que ele apareça.

    Talvez seja um percepção equivocada da minha parte, e não tenha sacado o filme, mas é o que sinto hoje pensando nele.
    No mais gosto muito do programa de vocês, E se tiver que fazer uma observação, acho que o programa ganharia muito em qualidade fazendo uma parte do episódio com spoilers analisando cenas, diálogos etc… dado o conhecimento de vocês Ficaria excelente!

    Curtir

    1. A ideia de abrir o programa para spoilers é polêmica, Diego, mas estamos sempre pensando nela. Talvez um Cantinho do Spoiler seja mesmo a solução. Na conversa sobre Três Anúncios, senti falta de poder explicitar algumas cenas que me deixaram incomodado. Acho que teria facilitado a compreensão de alguns argumentos debatidos, até.

      Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

  7. Oi, pessoal! 🙂

    Me chamo Douglas, ouço o Cinema na Varanda desde a primeiríssima edição e, enfim, resolvi fazer uma aparição no Cantinho do Ouvinte. Para o provável desgosto de vocês, resolvi deixar este comentário na tentativa de socorrer a pobre Tonya.

    Confesso que fui assistir ao filme com uma certa expectativa. Conhecia um pouco da história e o trailer tinha me chamado a atenção. Ao longo dos primeiros minutos de projeção, fui surpreendido — negativamente, é importante frisar — pelo tom do filme, que me pareceu tão inesperado quanto inadequado.

    Num primeiro momento, compartilhei das mesmas críticas que vocês levantaram. Achei que o filme faz uso de uma quantidade excessiva de artifícios (mockumentary, montagem pseudo-descolada, quebra da quarta barreira), zomba de pessoas e situações reais, tornando tudo inverossímil e digno de sitcom e, claro, banaliza a violência doméstica. Tudo isso enquanto busca redimir uma personagem que não é lá muito digna de remissão.

    Essas percepções mudaram um pouco depois que resolvi estudar a história por trás do filme. Fiquei um tanto obcecado, confesso. Assisti documentários, entrevistas, li alguns ensaios e até comentários no YouTube, Redit e afins. No fim das contas, comecei a enxergar uma intenção no filme que talvez fuja demais da nossa leitura enquanto brasileiros.

    A história toda é uma parte muito importante do zeitgeist americano dos anos 90. Não compete em pé de igualdade com a saga do OJ nos tribunais, mas ainda é um marco importante. Talvez o filme nos pareça tão forçado porque ele pesa a mão ao levar pro cinema uma história e personagens que, por si só, são absurdos e quase inverossímeis. Sério, algumas entrevistas antigas da LaVona Golden (a mãe) e do Shawn Eckhardt (o guarda-costas) parecem zoeira.

    O absurdo é tão grande que envolve até sex tape da Tonya e do ex-marido, vendida pelo próprio Jeff Gillooly — que, acredite, Cris, é representado com certa fidelidade — em 94, antes mesmo de Pamela Anderson e Paris Hilton lançarem a tendência.

    A própria maneira como as pessoas julgam a suposta inocência da Tonya tem conotações ridículas. Existe uma certa simpatia em relação à história contada por ela. Não tanto porque as pessoas legitimamente acreditam nela, mas mais pela antipatia que nutrem em relação à imagem perfeita e virginal de princesinha do gelo da Nancy Kerrigan. Ela mesma é vítima até hoje de escrutínio por conta da cena capturada pela imprensa logo depois do ataque, em que grita “why me?”

    Não tenho a menor pretensão de redimir o filme. Acho que ele tem vários problemas. Mas agora também acho que, diante de todo o absurdo, talvez o deboche descarado e questionável seja o tipo de retrato que essa história bizarra merece.

    Por fim, deixo aqui o registro do meu mais sincero apreço pelo trabalho incrível que vocês fazem. Sérião!

    Beijos de luz.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Maravilhoso o comentário, Douglas. Muito esclarecedor para quem viu o filme e não captou o contexto dele. Se este longa provocou em você uma ‘obsessão’ em relação ao tema, algo positivo ele certamente tem 🙂

      Particularmente, entendo os seus argumentos, mas ainda não me convence a maneira como o filme levou todo esse circo para a tela. Fico incomodado com o movimento da trama de, num primeiro momento, ridicularizar os personagens e, depois, tratar a Tonya com ternura. E também não fiquei convencido com a maneira como o filme aponta o dedo para o espectador e para a mídia sem dar elementos para que entendamos por completo como esse espetáculo midiático foi de fato criado.

      “Talvez o deboche descarado e questionável seja o tipo de retrato que essa história bizarra merece”. Talvez sim, mas talvez a abordagem do filme tenha aliviado esse olhar furioso com uma parte final que se revela branda em excesso. Senti que o filme, de uma maneira ou de outra, não foi profundamente o que pretendia ter sido.

      Abraço e, por favor, siga comentando no blog

      Curtir

  8. Entendo os incômodos que vcs sentiram com “Eu, Tonya”, especialmente na abordagem à violência doméstica com a sutileza de um episódio de “Family Guy”. Mas a história talvez tenha elementos que nós, à distância, não capturemos da mesma forma que o americano médio que viveu aquilo tudo. Fico imaginando um americano vendo um hipotético filme brasileiro sobre os Mamonas Assassinas. Como fazê-lo entender que aquela banda com um humor condenável nos dias de hoje tenha feito sucesso com o público infantil e provocado uma comoção tão gigantesca? A gente não sabe explicar, a gente apenas sentiu, heheheh.

    Vi uma entrevista conjunta da Tonya Harding e da Margot Robbie ao Hollywood Reporter, em que a Tonya diz estar feliz e grata com o que viu na tela, que considera que ali estão as verdades sobre os fatos e que espera que o filme ajude outras pessoas a não passarem pelo que ela passou. A crítica publicada no site do Roger Ebert é bastante elogiosa e avalia o filme como “uma zoeira afetiva que não zoa com a própria Tonya Harding”. Não acho que estamos certos ou errados na percepção. Falta alguma pecinha pra gente compreender esse respeito à personagem que foi citado mas a gente não conseguiu enxergar. O comentário sensacional do Douglas aí em cima é um bom norteador.

    Como entusiasta da campanha #esportesnavaranda, fiquei feliz com a presença de “Eu, Tonya” entre os filmes discutidos da semana. Espero que pintem outros bons filmes de esporte na temporada!

    Abraços a todos!

    Curtir

    1. “Uma zoeira afetiva que não zoa com a própria Tonya Harding”. Então, Leonardo: eu acho que o problema é que o filme zoa (por mais ou menos 1h30 de duração) e depois alivia a barra da personagem. É isso que, em linhas gerais, me deixou incomodado.

      Abraço!

      Curtir

  9. Concordo com o Tiago sobre as pessoas falando que esse filme é o retrato perfeito da América. Depois de revê-lo, pensei comigo: “não é igual a qualquer lugar do mundo atualmente?”

    Quantas vezes a gente não ouviu por aí que “tem que matar”, “tem que morrer” ou “a solução é x”. A simplificação convém hermeticamente como uma maneira prática e racional para questões complexas ao que é alheio ao nosso poder.

    A mãe que perde a filha de maneira brutalmente aleatória. O delegado que é dominado pela incapacidade de lidar com a morte inevitável. O policial que tem tanta frustração por uma ausência relacional que trata todos ao seu redor como inimigos.

    Muita gente trata esse filme do Martin McDonagh como simplório, mas exalta A Forma Da Água como um grande cinema e complexo. Respeito, mas não entendo. O roteiro aqui não simplifica absolutamente nada, pelo contrário, cria soluções e mini-retratos de vários personagens numa interligação quase familiar.

    Cenas sobre a família implícita nesse filme: O deputado cospe sangue na cara da Frances e ela diz com calma e amor “tudo bem, baby” de uma forma maternal e caridosa pouco antes de um embate entre os dois. Na morte do delegado, o policial Rockwell chora copiosamente como uma criança. Aliás, muita coisa mostra durante o filme essa relação avó-pai-filho. O delegado falando que via potencial no policial, a cena dele lendo a carta ouvindo música nos fones e mexendo os pézinhos, de forma quase infantilista. Frances subjugando a autoridade do delegado como se a autoridade dele fosse apenas formal.

    Enfim, meu comentário ficou bem grande, mas eu entendo tudo o que falaram negativamente sobre esse filme. Só não engulo uma coisa: ele ser menor que a Forma da Água. Como cinema pode até ser, mas como obra fílmica que dialoga com nossos fantasmas da raiva, do medo, da indiferença, da intolerância, isso é. E não tem nada a ver com Trump. Só ver recepção dodiscurso dele no State of Union pela mídia progressista e pelos deputados democratas. Um discurso marcado pelo enaltecimento do aumento de empregos para afroamericanos e pedido de união nos momentos complexos do país foram basicamente boicotados. Os dois lados estão doentes e esse filme fala de uma cura mais genuína e complexa do que A Forma da Água (que quer simplesmente matar o “monstro”).

    Parabéns pelo trabalho, galera! Adoro vocês.

    Curtir

    1. Davi, muito bom o seu comentário. Gostei muito de lê-lo porque ele mostra como um mesmo filme, às vezes uma mesma cena, pode agradar tanto a um espectador e desagradar tanto a outro. Arte tem dessas coisas, certo?

      Vou pinçar um exemplo entre todos os que você apontou: na cena em que o policial lê a carta na delegacia, você reparou na maneira como ele está “mexendo os pezinhos, de forma quase infantilista”. Pois bem. Nessa mesma cena, o que me incomodou foi o fato de o filme ter escolhido mostrar esse policial muito racista lendo uma carta transformadora exatamente no momento em que a mãe vingativa atira um coquetel molotov que acerta em cheio a delegacia e provoca um incêndio terrível. Tudo muito conveniente para fazer o roteiro ir de um ponto A a um ponto B (também me irritei um pouco com o fato de que o policial, aparentemente sem problemas olfativos, não consegue reparar que existe um incêndio em curso – mas esse é o menor dos problemas, acho).

      Isto é: enquanto, pra você, o TEMA do filme falou muito mais alto e te envolveu completamente na trama, para mim a MANEIRA como esse tema foi construído me expulsou dessa mesma trama.

      Se a ideia é comparar uma suposta importância de temas, o ‘Três Anúncios’ talvez ganhe de ‘A Forma da Água’. Repito: concordo 100% com a mensagem do McDonagh (e quem não concordaria? Violência gera violência etc.). Acredito, no entanto, que ela foi filmada de uma maneira, para o meu gosto, esquemática demais e sem muita profundidade no uso de elementos cinematográficos. Há muitas maneiras de filmar esse mesmíssimo tema. A atmosfera de romantismo que o Del Toro cria em ‘A Forma da Água’, por exemplo (e isso tem tanto a ver com tema quanto com cinema), me entusiasma muito mais.

      Abraço!

      Curtir

      1. Excelente, Tiago! Acho que é por aí. A maneira como foi filmado o filme talvez seja muito teatral, muito enxuta, quase naquela desculpinha malandra do “quis dar espaço para os atores”. De fato, senti falta de pulso e de mais cinema na condução do filme. Não sei, mas será que não é meio que por isso que não tem uma unanimidade nesse Oscar? Temos um roteiro consistente (apesar de esquematizações, como vc falou acima) com direção falha, uma direção firme com uma trama formal demais e um filme competente dentro de um subgênero adolescente que acaba sendo engolido pelos clichês pré-existentes. Não sei, mas dentro disso tudo ainda vou com o Três Anúncios por ser a obra que me entusiasmou mais.

        Fora do assunto, aguardo os comentários de vocês sobre A Trama Fantasma. Na minha opinião, o melhor filme do ano.

        Abraço!

        Curtido por 1 pessoa

  10. Gostei de 3 Anúncios, tudo que soube do filme por um bom tempo foi o título em português, o que me fez imaginar alguma trama em que alguém iria anunciar um crime três vezes antes de cometê-lo. Parece título de filme da Agatha Christie. Gostei do filme e realmente o abracei, tanto que na mencionada cena do restaurante e/ou lanchonete pensei: uai, que conveniente; depois disse: deixa pra lá, como fiz com uma coisa ou outra que ameaçou me incomodar, curti bastante a trilha sonora. Acho que se tivesse terminado o filme um pouco antes teria sido melhor.

    Também curti Eu, Tonya, mas entendo todas as ressalvas que vocês fizeram, pois fiquei pensando depois se deveria ter gostado do filme, foi uma sensação estranha. Tenho profunda simpatia pela Margot Robbie e profunda antipatia pela Tonya, não dá pra comprar a inocência dela, nem suas justificativas. Realmente, como fui preparada para ver um filme sobre uma atleta, senti falta de que se mostrasse importância esportiva da protagonista. E já que um dos acontecimentos importantes da história é o ataque à rival, a falta de desenvolvimento da mesma é uma falha, nunca lembro o nome da bichinha, tive que consultar o google quando estava contando o ocorrido a alguém.

    Curtir

  11. Eu vi Pantera… Demorei para escrever, pois esqueci da minha promessa de voltar rs…

    Eu gostei do filme, acho que há uma trama política interessante, ainda que rasa (mas tem que ser assim mesmo), e que o filme cumpre a função de divertir.

    Acho que a fórmula Marvel permanece, mas as piadas, felizmente, perderam espaço no filme e quando aparecem estão dentro do filme mesmo.

    Incomodou-me o excesso de plano e contra plano utilizado no filme… Sei lá… perde-se muito da misancene com isso… acho esse recurso típico de tela azul.

    Além disso, ainda que Wakanda apareça bastante, ela aparece de longe… De fato, nunca conhecemos o funcionamento da cidade (isso é um ponto fraco).

    Para mim ele é um bom filme.

    Curtido por 1 pessoa

  12. É uma honra estar na pré lista do Varanda Awards. Só não sei como vou conseguir sustentar a minha campanha até o final do ano para entrar na lista dos indicados definitivamente. Também vou usar a estratégia do Spielberg. Irei promover um jantar com alguns convidados. Na mesa do Tiago vai tá lá o Hong Sang-soo, na mesa do Michel o Christopher Nolan, na mesa do Chico o David Lynch e na mesa da Cris o Ewan McGregor ou qualquer outra persona inglesa. Será que eu levo a estatueta? Sobre os filmes só irei falar mesmo de “3 Anúncios Para Um Crime”. Achei muito fogo para pouca gasolina. É claro que o filme tem suas qualidades e méritos. A ideia do filme é sensacional e estava quase imergindo na história. Até que umas certas cartas me fizeram abandonar e desacreditar um pouco do enredo. Como personagens tão complexos se rendem a um sentimentalistmo improvisado? Das atuações eu gostei mesmo do Woody Harrelson, ele sempre me surpreende. Mas ainda preferia a sutileza do Michael Stuhlbarg, em Me Chame Pelo Seu Nome, do que a persona agressiva do Sam Rockwell. Me desculpem, mas a Frances McDormand é quase a mesma personagem do Fargo dirigida por Clint Eastwood ou seria a Frances McDormand dirigida pelo Clint mesmo. Eu certamente optaria por indicar Florence Pugh, por Lady Macbeth e Cynthia Nixox, por Além das Palavras. E sobre ser um filme profundo, não consigo entender que profundidade foi essa quando simplesmente em uma cena praticamente todo o filme é condensado. Enfim, queria ter gostado muito mais. Abraços!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s