Episódio 87: As Escolhas de Sofia

A cineasta Sofia Coppola está nos cinemas com seu novo filme, uma versão para O Estranho que Nós Amamos (12:51). Impossível não compará-lo com o filme de 1971 assinado por Don Siegel, com Clint Eastwood no papel principal, e analisar as escolhas da diretora. Chico Fireman, Cris Lumi, Michel Simões e Tiago Faria aproveitam a discussão sobre o longa que venceu o prêmio de melhor direção em Cannes este ano para escolher os melhores filmes da realizadora.

Também em discussão, o finlandês O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki (55:04), vencedor do prêmio principal da mostra Um Certo Olhar 2016, também em Cannes, sobre um personagem dividido entre o mundo do boxe e o amor. E tem Cantinho do Ouvinte e Recomendações. Bom podcast!

METAVARANDA (média das notas dos filmes comentados na edição)

O Estranho que nós Amamos | The Beguiled | Sofia Coppola | 58
O Dia mais Feliz da Vida de Olli Mäki Hymyilevä Mies | Juho Kuosmanen | 69

Gravado na segunda, 14 de agosto, na varanda do Michel.

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6 comentários sobre “Episódio 87: As Escolhas de Sofia

  1. Sofia Coppola é especialista em falar de pessoas que estão vivendo dentro de uma redoma de privilégios, mas que não tem nenhum controle de fato sobre a vida delas Isto está presente em Maria Antonieta, em Encontros e Desencontros e até em um Lugar Qualquer. Dentro de seus filmes enxutos, quase beirando a poemas haikus, com temas aparentemente simples, mas bastante complexos ao mesmo tempo, Sofia sempre mostra um certo distanciamento sobre seus personagens, conseguindo tratar de assuntos que podem ir de consumismo até o abandono. Ignorando o conselho de seu pai que disse que “ninguém faz refilmagens se não for pelo dinheiro”, Sofia, escuta sua diretora de arte Anne Ross e refilma um clássico de Don Siegel e estrelado por Clint Eastwood, Um Estranhos que Nós Amamos. Apesar de ter feitos bons filmes no passado, Sofia não consegue atingir profundidade em sua última obra. Um dos seus grandes problemas é corrigir e pasteurizar o livro e o filme. Coppola não muda muito a trama do filme original, mas substitui seu ponto de vista por um contexto mais moderno. Entra uma concepção de empoderamento feminino, sai o machismo do filme original. O grande problema é que durante essa mudança de visão, ela extraiu completamente a complexidade da obra, ou seja, ela não entendeu que o ser humano, seja ele do sexo masculino ou feminino apresenta uma mente soturna e que a grande questão é enfretá-la. No momento em que ela censura momentos indesejáveis como a a escravidão; o incesto entre irmãos; o beijo entre um homem adulto e uma pré-adolescente, ela esvazia toda a pretensão da obra do autor. Sofia nega completamente essas zonas obscuras da natureza humana e deixa tudo mais politicamente correto. Ela reprograma um universo humano que já é infalivelmente imperfeito a sua própria vontade. No final, tudo é muito empobrecedor e infantil. Sofia Coppola, corta cenas mais impactantes e inferioriza seu trabalho, entretanto consegue objetificar o corpo masculino como instrumento de subversão. Em conclusão, é um filme mais frio e escuro do que o original e também muito mais decepcionante.

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    1. Bela análise, Vinicius. Concordo com quase tudo. Especialmente com esta parte: “Ela não entendeu que o ser humano, seja ele do sexo masculino ou feminino apresenta uma mente soturna e que a grande questão é enfrentá-la”.

      Acrescento, no entanto, que noto sim algumas camadas não tão visíveis, sutis, na maneira como a Sofia dialoga com o filme anterior, de uma maneira que nega quase completamente a lógica convencional dos remakes. Ela não está ‘refazendo’ aquele filme, mas colocando-o num outro contexto e questionando uma série de aspectos que estão nele e que às vezes escapam dele e refletem uma época, um olhar de cinema etc… É uma pena, no entanto, que essa ambição fique em grande parte limitado ao mundo das ideias e não encontre uma tradução cinematográfica muito atraente. E aí acredito que o problema esteja na dificuldade da Sofia de trabalhar com elementos mais básicos e até técnicos do cinema de gênero.

      Abraço!
      Tiago.

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  2. As vantagens de ir nú – ou não – para um filme é o risco de não ter que compará-lo com o livro ou filme ao que o mesmo se referencia. Talvez tenha sido essa a minha vantagem e o porquê de eu ter gostado muito deste. Como não vi o filme de Don Siegel e nem li o livro, creio que meu comentário possa soar raso. Quando terminei de assistir ao filme me fiz a seguinte pergunta: o que se espera de um homem que recebe ajuda de uma casa comandada por mulheres que lhe salvam da morte? Nada mais do que gratidão, suponho. Mas o que este homem faz? Começa um jogo de sedução como se todas as mulheres, independente de seus desejos ou não, tivessem a disposição de seus interesses quando este é ameaçado a deixar o local – ainda que este seja retratado como objeto de desejo. Ora, é uma casa de mulheres e eu sou homem, isso talvez me dá o direito de ter qualquer mulher aqui. Afinal, qual homem que cresce nessa estrutura de sociedade não pensaria o mesmo? Então, para cada mulher terei um tipo de comportamento diferente, uma maneira de seduzir diferente. Para a mais romântica, serei um autêntico Romeu. Para a mais racional, serei questionador? Para a adolescente na flor de seus desejos, serei aquele que dará frutos a sua imaginação. Por quê não aceitar a solidariedade e partir daquele lugar sendo grato pelo que lhe foi feito? Por quê não flertar somente a uma mulher ao invés de querer possuir todas? Mas não, a minha condição de homem me permite o que eu quiser. Me permite ter qualquer mulher desse local, desde que eu saiba como agir, como enganar. Era óbvio que esse homem jamais erraria o quarto se tivesse realmente apaixonado pela Edwina. Nessa estrutura machista de sociedade, a primeira escolha de qualquer homem seria a ninfeta, a jovem adolescente virgem. Existe algo de mais viril para qualquer homem nisso? Quem sabe depois eu fosse para os outros quartos satisfazer o homem dentro de mim? Outra coisa que me perguntei depois foi o fato das mulheres terem feito o que fez depois do acidente, se aquilo representou mesmo algo proposital? Tive a leve sensação de que a propositalidade do fato identificada nas personagens femininas tenha sido mais uma observação do personagem homem – John McBurney – que em nenhum momento reconhece a sua culpa. Os homens não tem esse comportamento? Não reconhecem a sua culpa após uma traição ou um engano? Não foi culpa da mulher que não deu atenção? Enfim, não sei se realmente o filme precisou de mais cenas impactantes ou não. Não sei se a omissão da personagem escrava diminui o filme. Não sei se a direção de algumas cenas foram comedidas ou não. Mas o fato é que “O Estranho Que Nós Amávamos” me fez direcionar o olhar para uma estrutura de sociedade arcaica que vivenciamos até os momentos atuais e com isso me fez refletir acerca do papel da mulher naquela época até os dias atuais, com isso me fiz uma nova pergunta: o que mudou? Um abraço. Tava com saudades de comentar.

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  3. Cheguei. Olha eu aqui, ufa. Nem acredito. Em 21/08 as 17h00 terminei de tirar meu atraso de episódios que vinham desde o “Todas as formas de paranoia”. Muitos momentos altos da Varanda aconteceram nesse tempo, hein? (melhores do semestre, discussão sobre Bong, discussão [profunda] sobre Malick – nem gosto dele, mas a discussão de vocês me instiga a rever alguns filmes, mesmo que para não gostar novamente, vocês são poderosos). Agora ficarei em dia. \o/

    Não vi o filme da Sofia ainda, mas estou com o do Don Siegel fresquinho na cabeça. Adoro esse filme, incomoda de uma maneira que nem sei explicar. Como ele entrou no coração da discussão, poderia ter entrado no Metavaranda também, né?

    Abraços,

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